Turismo doméstico deve voltar ao nível pré-pandemia no final do ano

O avanço da vacinação contra a Covid-19 no segundo semestre e a demanda reprimida por viagens elevam as projeções para a retomada do setor de turismo, um dos mais abalados pelas restrições à circulação de pessoas. As constantes revisões dos cronogramas estaduais para a aplicação da primeira dose levam empresários a projetar a retomada de parte das operações ao nível pré-pandemia já no fim de 2021. O processo de recuperação deve se estender ao longo do próximo ano e encerrar em 2023, com o retorno completo das atividades ao patamar de 2019. Dados da CVC, uma das maiores operadora de turismo do país, mostram que a recuperação do setor é puxada pelo segmento doméstico. As reservas de viagens para destinos dentro do país estão em constante crescimento, e no primeiro trimestre deste ano alcançaram 63,3% do registrado no mesmo período de 2020. A curva ascendente na vacinação e a temporada de férias de verão devem impulsionar a categoria para a recuperação nos próximos meses. “Seguramente, o mundo vai estar praticamente normal quando a gente olha para o turismo doméstico”, afirma o CEO da companhia, Leonel Andrade. “O grande impulsionador disso, sem dúvida, é a vacinação. Portanto, 100% da nossa energia deve estar focada para que a imunização ande rápido e com sucesso.”

A retomada do setor doméstico como o primeiro sinal de normalização do turismo já foi vista em outras regiões do globo onde a imunização contra o novo coronavírus está mais avançada. Com a perspectiva privilegiada de quem mantém operações em 110 países, o conglomerado de hotéis Accor projeta que o ritmo de recuperação no Brasil seja semelhante ao acompanhado na Europa, onde as viagens internas foram as primeiras a experimentar uma retomada ao “velho normal”. Com mais de 5 mil unidades ao redor do mundo — sendo 323 no Brasil —, e detentora de 44 marcas de hotéis, entre eles as redes Ibis, Mercure, Pullman e Fairmont, as projeções do grupo também apontam para a normalização das atividades ao longo dos próximos meses. “A partir de setembro, deveremos ver no Brasil sinais de atividades comparáveis aos da Europa”, diz o CEO da Accor para a América do Sul, Thomas Dubaere. A expectativa é que a imunização da população adulta projetada para o segundo semestre leve gradativamente aos níveis anteriores à pandemia a partir de 2022. “Estamos vendo a luz no fim do túnel, mas temos consciência de que o Brasil é um país enorme, então vai demorar um pouco mais de tempo [para a imunização] do que nos países menores da Europa”, afirma.

A recuperação do turismo pelas viagens locais pode ser explicada por uma série de fatores, desde a falta de confiança das pessoas em ficar longe de casa em um momento em que a pandemia ainda se mantém em níveis elevados até a questão financeira. A imposição de barreiras aos brasileiros por diversos países também empurra parte desta demanda ávida por viagens para os destinos locais. A abertura das fronteiras, estimada apenas para o ano que vem, será o último passo para a retomada completa do segmento. “Na comparação com 2019, ainda estamos muito atrás, mas já estamos muito melhores do que em 2020, o auge do desconhecido”, afirma o CEO da CVC. Com base em dados globais, Dubaere aponta para a retomada do compasso de crescimento de turistas ao ritmo de 4,4% ao ano, índice observado até 2019. “Enquanto isso, a cadeia de suprimentos estava crescendo 2,3% ao ano. Os números mostram que vamos voltar ao que tínhamos antes, só que infelizmente perdemos um ano e meio.”

O turismo de lazer é a principal aposta para esse momento de recuperação. Depois de mais de um ano de pandemia e falta de perspectiva, a esperança com a tração na vacinação deve dar corpo para a demanda reprimida. Esse segmento de pacote sempre foi líder de vendas na CVC, com quase 80% do mercado. A previsão é que o número se mantenha nesse movimento de crescimento. “A classes mais altas estão finalmente conhecendo o Brasil, e o país conta com uma boa estrutura para isso”, diz Andrade. O sentimento é compartilhado pelo CEO da Accor, que define o momento como uma descoberta do próprio país. “Está claro que as pessoas querem sair, viajar de novo e encontrar família e amigos. Nós vemos que as grandes viagens, de um continente para outro, ocorrerão em uma segunda etapa”, diz Dubaere. Projetando a abertura de mais 25 hotéis na América do Sul ao longo deste ano, e 98 até 2025 — sendo 70% deles no Brasil —, a Accor vê na região uma fonte de oportunidades para o mercado pós-pandemia. “As viagens de lazer vão crescer, e um local como o Brasil, com natureza, montanhas, praias, oferece tudo o que este segmento necessita”, afirma.